Pela janela ela podia ver o mundo. Praia, Sol, morros, montanhas, gente de todo o tipo. Ficava horas pensando na vida; dos outros. O que fazia a moça com uma criança no colo que caminhava em sua rua, ou pra onde estaria indo o homem que andava de bicicleta todos os dia no mesmo horário.
Podia olhar pra dentro e ter o que quisesse. Da solidão à todos batendo em sua porta. Podia sair, e pra onde quer que fosse, quando voltasse tudo estaria no lugar, como sempre. Sem problemas insolúveis, motivos pra chorar ou sofrer. Nada de dia, nada de noite. O tempo se foi enquanto ela olhava o celular, esperando um barulho, que nunca ouviu. E as horas não passavam só pra ela. Até que a janela, de novo, lhe mostrava que mais um dia tinha ido embora. E à noite, lá estava ela. Olhando de longe, a vida passar.
O tempo se encarregou de trazer um sentimento: angústia. Ora, claro que não poderia existir isso em tal lugar. Conhecia todos os filmes, livros, tudo que era reconhecido. Todos os traços de cultura. Sabia tudo sobre os grandes filósofos e não podia nem imaginar que existisse uma notícia no mundo da qual não tivesse conhecimento! Compravam-lhe o que quisesse, faziam e refaziam se não estivesse satisfeita. Tinha tudo!
E não tinha ninguém.
Pensava como seria bom ser a mãe da criança que a moça que caminhava em sua rua tinha nos braços. Qual a sensação de ter a vida do homem que anda de bicicleta todos os dias. Com certeza ele fazia isso pensando na rotina agitada e trabalhosa que tinha, pensava ela. Devia resolver seus problemas assim, jantar com a família. Tinha pra quem comprar presentes, com quem se preocupar.
Ela pensava no dia em que seria uma pessoa na rua, com pressa de chegar. E quando iria usar a mesma coragem com que observava o tempo ir embora; para viver o que a esperava do outro lado da janela.
sábado, 17 de abril de 2010
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"Uma grande discussão de um assunto batido pelo lado inverso." Muito bom.
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